Passado o dia Internacional da Mulher, estamos ainda no que chamam de “mês” da mulher. Mas aqui no GWS, todo dia é dia de falar, debater, evoluir, desconstruir, compartilhar e aprender sobre o nosso universo e é, com muita satisfação e alegria, que escrevo essa primeira matéria colaborativa para o blog. No dia 8, ao ver um desabafo meu nos stories, a Nuta me convidou a escrever sobre idealização da maternidade. Por quê? Porque eu, beirando os 30 anos, não penso em ser mãe e toda vez que falo sobre o assunto sou bombardeada com olhares de surpresa e o pior de tudo: preciso lidar com a falta de legitimação da minha vontade. Tenho certeza que muitas de vocês que vão ler isso aqui passam pelo mesmo.

idealização da maternidade

Ilustração:  Vanja Vukelić

Com um breve histórico a gente vê onde tudo começou, lá atrás, nas primeiras bonecas que ganhamos e tratamos como filhas. Mamadeira, chupeta, fraldinha – a gente cresce brincando de casinha, de ser mãe e antes dos 10 anos até o nome dos nossos filhos já sabemos quais vão ser. Somos preparadas desde o dia que aprendemos a andar e falar para o nosso futuro maternal. Aí você cresce, forma sua personalidade, vai aos poucos conhecendo a vida, seus gostos, suas vontades e prioridades. Então você vai entendendo a luta feminina diária, a posição ocupada por homens na sociedade, vê como sua mãe e como outras mães foram sobrecarregadas com a maternidade, como é fácil ser pai, conhece o aborto masculino (aquele que ninguém fala, mas existe aos montes), se vê num mundo onde suas escolhas não são respeitadas e que a conta final sempre vem mais cara pra você, apenas porque você é mulher e mãe.

Não é fácil. E já quero adiantar que nada disso aqui é, nem de longe, um texto para desanimar quem sonha em ser mãe. É um texto sobre quem não pensa em ser mãe e precisa de respeito por sua escolha. O meu não sonho em ser mãe nada tem a ver com os pontos citados acima, e mesmo que, de alguma forma, eles ajudem nesse processo, eu apenas não tenho esse sonho, não me vejo sendo mãe, mas também não descarto a possibilidade, já que na vida não podemos prever nada sobre o amanhã. Pode ser que daqui a uns anos, essa que vos escreve apareça por aí com um bebê no colo, e mesmo assim tudo que eu escrevi aqui continuará valendo.

Parem de idealizar a maternidade. Parem de cobrar das mulheres a idealização da maternidade. Parem de colocar a nossa felicidade de vida na maternidade. Parem de achar que se não formos mães, não seremos realizadas. Parem com o estereótipo da menina que cresce sonhando em ser mãe e parem de criar suas filhas para pensarem assim. Não queremos mais uma geração de mulheres frustradas por pura pressão, criação e por acharem que estão fora do script. Nós podemos sonhar em ter 5 filhos, podemos sonhar em ter 5 cachorros, podemos sonhar em rodar o mundo, podemos sonhar tudo e qualquer coisa que seja de nossa vontade. A imposição é exaustiva e desrespeitosa.

O que acho mais preocupante é que quando somos criados dentro de um modelo de sociedade que possui costumes tão fortes e enraizados, crescemos e fazemos escolhas que mal sabemos se de fato é o que queremos. Será que você realmente sonha em ser mãe ou será que você acha que tem que ser mãe porque você cresceu com essa ideia fixada na sua cabeça? Foi esse questionamento que me fez entender a minha real vontade e foi a partir daí que eu criei coragem pra me ouvir e aceitar o que vinha de dentro.

Sou a única filha mulher em meio a filhos homens e nem preciso dizer o quanto isso já te coloca numa posição mais maternal possível. Por um lado não posso reclamar, pois nunca senti uma imposição muito forte vindo da minha família, mesmo tendo sido criada dentro dos moldes tradicionais e por ter escutado muito que “só faltava eu”, depois que todos os meus irmãos tiveram filhos. E ainda tem a minha mãe, que sempre me incentivou a fazer o caminho oposto ao dela, que aos 23 anos já tinha 2 filhos. Posso dizer que minha mãe tem um papel importantíssimo nessa minha libertação, já que ela sempre me disse: “não faça o que eu fiz, viva muito, estude, mais pra frente você pensa com calma no que você realmente quer, não tenha pressa”. Sábia. Uma mãe maravilhosa que nos criou da melhor forma que poderia, e que sem hipocrisia nenhuma sempre me deixou saber de todos os lados da maternidade, sem romantizações, mas com verdades. Obrigada, mãe.

Ser mãe deve ser maravilhoso. Claro que vez ou outra me pego pensando como seriam meus filhos, se teriam cabelo cacheado como o meu, como se chamariam – na verdade tenho até nomes escolhidos: Antônio se fosse menino e Gal se fosse menina. E no meio desses pensamentos a gente sonha, bate uma vontade forte. Mas no meu caso, a vontade vem e vai embora. E enquanto sigo sem esse sonho, peço que possamos ter escolhas legítimas e que nossa felicidade não seja contestada por terceiros. Acredito que existam outros assuntos relacionados à maternidade muito mais importantes do que a escolha de uma mulher querer ser mãe ou não para serem debatidos com urgência.

Vamos falar sobre a legalização do aborto e como esse assunto é urgente e trata de saúde pública e precisa, de uma vez por todas, parar de ser tratado com cunho religioso, pois mulheres estão morrendo. Vamos falar sobre o aborto paternal, sobre fraldários apenas para mães, afinal pai também tem que trocar fralda, né? Vamos falar sobre a culpa que sempre cai no colo das mães e a isenção de responsabilidade dos pais. Vamos falar sobre a divisão de tarefas na criação dos filhos e como mães são sobrecarregadas. Vamos falar sobre a imposição do corpo perfeito e a falta de respeito com a mulher que acabou de passar por um processo enorme de mudança no corpo, hormônios e emocional com a maternidade.

Finalizo esse texto/desabafo com esse apelo, pois as forças, comentários e debates são direcionados para o lado errado, e nós estamos exaustas de tudo isso. E que você possa viver a sua vida de maneira genuína, sem culpa, sem se impor nada, sem pressão. Siga em frente com suas vontades, dentro do seu tempo e prioridades. Não deixe que eles lá fora digam o que é melhor pra você e quando é melhor pra você. Que nós possamos a cada dia nos libertar de todas as pequenas amarras que nos são impostas. Sejamos livres.

— ♥

Por: Andrezza Nicolau:

idealização da maternidade

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