As redes sociais representam um ambiente capaz de promover e fazer circular ideias para o desenvolvimento da sociedade e fortalecer causas sociais, como diz o pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Henrique Antoun, e tantos outros que têm como tal espaço o seu laboratório de estudo, a exemplo de Cláudio Paiva, da Universidade Federal da Paraíba, e Raquel Recuero, da Universidade Federal de Pelotas. 

No entanto, afirmam que as redes também são utilizadas para promover fragmentação social, ódio disfarçado de humor e piadas maldosas, que afetam a regiões e grupos sociais distintos, como índios, negros, quilombolas, deficientes físicos, gays e mulheres. Populações que ao longo da história foram marcadas pela exclusão social. Gostaria de entender melhor o ódio velado nas redes sociais? Continue a leitura deste artigo!

Umberto Eco e o imbecil digital

Nascido na Itália em 1932, época em que o fascismo tomou contornos mais significativos a partir de eventos como o Fascismo Italiano e o Nazismo Alemão, Umberto Eco foi um importante escritor e filósofo, muito respeitado pela comunidade acadêmica internacional, exatamente pela sua interpretação da história em relação aos fatos supracitados.

Mais do que isso, foi um crítico ferrenho das novas tecnologias de comunicação e informação. Para o intelectual, as redes sociais deram vozes a uma legião de imbecis (uma de suas frases mais impactantes sobre a sociedade contemporânea), que antes falavam apenas em uma mesa de bar, mas que hoje proliferam os mais maldosos dos pensamentos nas plataformas de comunicação globalizada, afetando a coletividade e, sobretudo, os grupos sociais menos favorecidos social e politicamente.

Pior ainda, disse o filósofo, as pessoas que agem desse modo acreditam que são portadoras da verdade absoluta. Relativizam e romantizam fatos históricos que retratam episódios desumanos para sustentar a sua verdade e agredir populações. Valem-se do humor e da piada de mau gosto, geralmente reproduzidos em memes, para violentar, simbolicamente, identidades, costumes e hábitos de povos com os quais, no fundo, não comungam.

Exemplo clássico, no Brasil, são as piadas nas redes que são dirigidas aos nordestinos, gays, negros e mulheres e tantos outros grupos sociais, vistos como inferiores por quem utiliza o humor como disfarce de seu desprezo e ódio.

Pierre Bourdieu e a violência simbólica nas redes sociais

Para descortinar o ódio velado nas redes sociais é importante entender o conceito de violência simbólica, concebido por Pierre Bourdieu, respeitado sociólogo francês que já escreveu inúmeras obras, sendo uma delas “O poder Simbólico”.

De acordo com o pesquisador, podemos entender a violência simbólica como um fenômeno que ganha vida a partir do campo simbólico, que é definido por ele como sendo o mundo onde o invisível se torna visível, a partir dos discursos que estão presentes nos mais variados suportes de comunicação e sentido, como os livros, TV, rádio, redes sociais, memes, igreja, escola, entre outros. Meios estes que reproduzem heranças históricas, sociais e culturais, buscando legitimá-las.

Pierre Bourdieu afirma que a violência simbólica está infiltrada no tecido social, legitimando todo tipo de violência imaterial, que pode estimular a agressão física, materializando-se.

Podemos ver tal fenômeno quando, por exemplo, um branco utiliza o “humor” para inferiorizar o negro; ou quando um homem utiliza um meme para reproduzir, simbolicamente, o lugar da mulher: dentro de casa do lar e dos filhos; ou, ainda, quando pessoas de regiões distintas utilizam artifícios como personagens conhecidos, a exemplo do Jeca Tatu, para se referir de forma humorística, nas redes, aos nordestinos.

O Jeca Tatu é um personagem criado por Monteiro Lobato, que simboliza o homem caipira do Brasil. Ele, na visão de Lobato, é indigente político e não tem educação, sendo o atraso do país, construção simbólica que contribuiu para formar a imagem do homem nordestino.

Casos de ódio velado (ou até mesmo escancarado) ou humor sem graça nas redes sociais

Nunca antes na história da sociedade pudemos ver de forma tão clara o discurso de ódio, desprezo ou intolerância contra determinados grupos sociais, por razões diversas, entre elas o preconceito étnico, orientação sexual, localidade, religião, gênero, etc. A seguir, confira alguns casos que selecionamos:

O caso Mayara Petruso

O caso de Mayara Petruso foi um dos mais repercutidos em todo o Brasil e, certamente, você deve lembrar. Residente de São Paulo, a estudante de direito postou em seu Twitter, nas eleições de 2012, mensagens preconceituosas contra os nordestinos, chegando a dizer que o nordestino não é gente.

O caso de Mayara é apenas um entre tantos que ocorrem nas redes sociais, sobretudo na época eleitoral. Para Tânia Bacelar, professora de economia da Universidade Federal de Pernambuco, a visão simplista e preconceituosa impede que tais pessoas consigam entender o que se passou nessa região nos últimos anos.

O caso dos estudantes de medicina da UVV

Sete homens com jaleco e calças abaixadas, cada um utilizando as duas mãos para simbolizar a genitália feminina, que estão posicionadas bem a frente de seus órgãos sexuais, e com um sorriso no rosto. Essa é a descrição da foto que foi tirada por estudantes de medicina da Universidade de Vila Velha (UVV) e postada na rede social Instagram com a seguinte hashtag: #pintosnervosos.

A imagem, que aparentemente assume a natureza de humor, foi amplamente criticada pelas mulheres, que questionaram a ética dos futuros profissionais, denunciando-os, inclusive, por fazerem apologia à violência sexual. Não bastasse essa brincadeira de mau gosto, estudantes de medicina da Universidade Regional de Blumenau realizaram a mesma cena e divulgaram nas redes sociais, causando ampla indignação.

O respeito é o que precisamos para não se tornar um imbecil digital

Seja no mundo objetivo ou no virtual, respeitar é preciso para não constranger ou ridicularizar o outro. Colocar-se no lugar do outro, ou seja, realizar um exercício de empatia, é fundamental para combater qualquer tentativa de transformar culturas, hábitos e costumes ou até grupos sociais em motivos de risadas e chacotas. Diminuir não é e nunca foi a solução.

O ideal, quando se estiver diante de uma situação de humor sem graça, é deixar de seguir a pessoa. Assim, você poupa a sua energia e se distancia de fontes intolerantes que pregam o ódio disfarçado de humor. A divergência entre a tolerância e a intolerância é o caráter e a ética, elementos que estão associados a nossa forma de existir e de se apresentar ao mundo. No entanto, nem todas as pessoas valorizam isso.

 

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